Nova negativa. Com aquele sorriso na cara diz que não podem servir o café, porque se encerra às 11:30 AM. Incrédulo, Douglas, olha no relógio: 11: 36 AM. “Estão de brincadeira?”
Quando você era criança eles te ensinaram a sonhar. O mundo parecia ser perfeito, assim como as pessoas. Entretanto, à medida que foi crescendo, você começou a perceber que as coisas não eram bem assim. É necessário lutar, e daí, trocam-se os sonhos. Assim como todos, você prefere ficar com os menores, mais fáceis, de direito. Agora, um bom emprego, casar e ter filhos devem ser suficientes e o resto fica para quem tem sorte. Passam mais alguns anos e você percebe que até mesmo as coisas mais básicas são difíceis. O amor não é como escreviam nos romances e os filhos não eram como nos comerciais de TV. Mentiram pra você?
Essa é a proposta de Um dia de Fúria(Falling Down, Estados Unidos, 1993), do diretor Joel Schumacher, que já dirigiu Batman, com o brilhante ator Michael Douglas. O filme se passa nos Estados Unidos e mostra o dia em que um simples cidadão quer apenas ir para sua casa ver o aniversário da filha.
No início, vemos um congestionamento. As pessoas buzinando, as moscas voando, o sol escaldante gerando um calor insuportável. Douglas apenas quer ir pra casa. Sai do carro, retira a chaves e, sob protestos, vai embora. Pára num orelhão, tenta ligar pra casa e não consegue terminar. As fichas acabam. Decide pedir troco numa loja.
Chegando lá encontra um oriental e lhe pede que troque o dinheiro. “Não, tem que comprar algo”. Mesmo implorando, o chinês se nega. Ok, ele sai pela loja e encontra uma Coca-cola. “80 centavos”, diz o chinês. “Mas não vai sobrar nada para ligação”, lamenta-se Douglas. “Não quero saber”. Pense na crítica social. Um oriental entra em seu país e ainda quer lhe roubar cobrando preços abusivos? No final ele rouba o taco de beisebol do chinês e destrói grande parte da loja. Paga a Coca-cola e sai.
Após isso, decide parar num muro para tomar seu refrigerante e pensar em seus problemas. Dois vagabundos aparecem dizendo aquele território é deles e exigem uma taxa. Será que ainda é possível usufruir tranquilamente do espaço público? Quem paga os impostos para que as ruas se mantenham limpas, bem cuidadas e sem vagabundos? Mais violência. Agora ele troca o taco de beisebol pela faca.
Sai e vai ligar para casa. Neste meio tempo, os vagabundos voltam com mais gente e muitas armas. Vêem Douglas parado no orelhão e, com uma metralhadora, atiram para todo lado. Acertam vários civis e batem o carro. Nosso herói sai ileso, reconhece os bandidos, rouba as armas de guerra e os ensina a atirar. Será que não existem mais homens nessa sociedade? Atirar por trás? Covardes, isso é o que somos.
Nosso herói vai parar numa lanchonete fast-food. Pede um café da manhã. A atendente, uma estúpida, diz que não, que não estão servindo mais o café e sim o almoço. Douglas chama o gerente. Nova negativa. Com aquele sorriso na cara diz que não podem servir o café, porque se encerra às 11:30 AM. Incrédulo, Douglas, olha no relógio: 11: 36 AM. “Estão de brincadeira?” e saca uma arma. Agora todos o atendem muitíssimo bem. Paga o lanche e sai.
No caminho, passa por um banco e enxerga uma figura excêntrica. Um homem desesperado proclamando verdades inconvenientes. Em sua mão uma placa que diz: “Você não é economicamente viável?”. "É isso o que lhe dizem quando não pode fazer empréstimos", explica o homem aos berros. Vejam a atualidade da crítica. Os bancos fazem o que querem, seus mais altos funcionários ganham milhões, mas suas operações fracassam e colapsam todo um sistema que prejudica a sociedade como um todo. Vem o governo e os salva. Com que dinheiro? O seu! E quando você precisa dos bancos, você não é economicamente viável?
Douglas não pode ir para casa. Sua esposa pediu separação, pois acha ele violento. Acha que ele pode bater nela, acha que ele seria capaz de machucar sua filha. Ela “acha”? Douglas nunca encostou o dedo na família e mesmo assim o juiz decretou que ele não pode se aproximar da família mais de 30m. Cruel? Pior, foi demitido da D-Fesa, empresa de fabricação de mísseis. Disseram que ele estava fora de mercado, muito especializado. Douglas acha que estava trabalhando para proteger o país. Uma honra? Um cirurgião plástico ganha cem vezes mais.
Ao ver o filme, talvez você fique com a sensação de que Douglas não esteja tão errado. Sente que se estivesse nas mesmas circunstâncias poderia muito bem ter as mesmas reações. Afinal, que sociedade é essa? Não é este o mundo que nos venderam.
Parece absurdo, mas se pensar, cada dia vivemos uma luta para simplesmente ter um dia normal. É como se a cada momento sofrêssemos alguma provocação. Reagir seria justo, mas pode lhe causar muitos problemas. Nossos pais, nosso chefe, o dono da padaria, o guarda da praça e seus vizinhos. O que querem de mim? Você se cala, prefere viver em paz.
No fim, Douglas descobre que é o bandido, ou “bad guy”. Não é isso o que acontece com você quando luta por seus direitos? Não é isso o que acontece com você quando aponta o dedo e revela todas as mentiras? Como diria Lobão, ter opinião hoje em dia é muito difícil.
Existem muitas outras cenas com um misto de deboche, injustiça e revolta. Chega a ser engraçado, mas nada tão absurdo.
O filme inspira, mas tome cuidado. O maior problema da nossa sociedade não são os ricos que aprontam, não são os políticos corruptos e nem os bandidos. O maior problema da nossa sociedade é a grande massa. Quando alguém tem um lapso de lucidez e decide lutar por seus direitos, alguém do meio da boiada, como medo de perder o pouco que tem e sair da comodidade, assume uma atitude feroz e defende o que não é seu, assume o papel de advogado do diabo
Sonhos. Será que não seria melhor não tê-los? Não é irônico? Todos têm os mesmos sonhos e eles nunca viram realidade? Acho que o problema são as pessoas.
Trailer:
http://http://www.youtube.com/watch?v=Fv-dvw2DsNc