Não pense que sou contra o trabalho. Apenas acho que ele deveria fazer parte de uma parcela menor do nosso tempo. Duas ou três horas talvez. Ninguém precisa mais do que isso. Quem quiser mais coisas pra si, que adquira paciência ou aprenda a fabricar.
Tenho o costume de ir contra os costumes. Em diferentes graus de intensidade, me incomodam. Quando uma quantidade desproporcional de pessoas escolhe o mesmo caminho, fico desconfiado. Mas, quando a maioria faz algo prejudicial sem notar os danos, fico possuído. O “efeito manada” esconde as feridas da sociedade. A inércia abomina qualquer tipo de questionamento.
Existem dois tipos de pessoas inertes. O primeiro embarca porque todos resolveram embarcar. O segundo, porém, já estava no barco e se contenta em estar. A única coisa que os dois têm em comum é a incapacidade de levantar os olhos e olhar ao redor. Se o fizessem, certamente que perceberiam a enrascada em que se meteram por estarem naquele barco.
Certamente que não estamos falando de uma doença crônica. Todos podem mudar. É, não sei, nem todos. Em relação a isso, posso dizer que as coisas pequenas precisam de poucos ajustes. Contudo, as grandes coisas precisam de um longo tempo.
Quando olho para maneira que nossas vidas são conduzidas, fico perplexo. Um longo tempo se passou e ainda adotamos o mesmo estilo de vida. O erro em que incorreram nossos antepassados apenas mudou de nome, porque continuam sendo que sempre serão.
Os pais de hoje têm poucos filhos, quando muito, dois. Ao nascer, essa criança torna-se o que há de mais sublime. Nasce à dádiva, a chance de realizar seus sonhos através de outra vida. Nem Deus pode com tanta idolatria.
Qual pai que não ama seu filho? A partir desta afirmação paradoxal, tudo é válido. A fim de proteger seu filho das mazelas vindouras, os pais, desde a tenra idade dos filhos, adotam um sistema intensivo de preparação. Matriculam na melhor escola, no cursinho de francês e alemão, entram nas aulas de violão e a noite ainda sobra tempo para a natação. Todas essas atividades, planejadas de forma mirabolante. O pai sabe explicar como ninguém em quais
skill level seus filhos irão evoluir dentro de cada tarefa. Maldita ciência positivista.
Onde fica aquela infância saudável? Aquela fase da vida onde somos livres? Não existia pressão, nem futuro. Nesta fase, o crescimento é uma sucessão de erros transformadores, às vezes dolorosos, mas profundamente enriquecedores. Roubaram isso de nós. Fomos ensinados a evitar ou suportar os erros, quando deveríamos ser ensinados a exercitá-los.
Além do sofrimento normal ao qual serão submetidos ao longo da vida, os filhos ainda precisam levar nas costas esse peso, o peso de serem a felicidade e a vida dos pais. Sendo assim, não se pode falhar.
A juventude é uma fase cheia de vida. Nossas veias provam o quanto somos insuperáveis. Entretanto, para onde vai tudo isso? Trabalho. Maldito trabalho. Quando o filho cresce, vai ao mundo, entra no campo de batalha.
Passamos toda nossa vida dentro desse maldito trabalho. Percebe como tudo gira em torno dele? Todos os dias da semana, você dorme e se alimenta. Por quê? Para gastar suas energias produzindo. Quando chega o final de semana, você descansa. Tudo para voltar para o trabalho.
Vai comprar algo? Precisa trabalhar. Quer ter uma família e construir sua casa, comprar um carro ou viajar. Trabalho, trabalho e trabalho. Desde a mais primitiva juventude, no início da era de ouro, assinamos um contrato de previdência onde abrimos mão de tudo isso para viver os últimos 10 anos em paz e dar prosperidade aos nossos filhos. Privação eterna.
Abandona seu presente certo para um futuro incerto e pueril. Do que adianta colocar tanto peso de não pode carregar?
Quem disse que isto é o certo? Quando passaram a pensar assim? Porque trabalhar tanto para um dia se aposentar e usufruir tão pouco? De que adianta ter desperdiçado tanto para uma vida medíocre? Na aposentadoria os velhos têm todo o tempo do mundo. Mas o que farão com ele?
Vamos inverter esse jogo. Ao findar os anos escolares, ganharemos nossa aposentadoria. Iremos vagabundear, ficar sem fazer nada, deixar de fazer o que é preciso para ter de fazer o que nos é sentido ser preciso. Lá pelos quarenta e tantos, no começo da derrocada, quando os limites impõem sua força, aí sim, daremos, aos poucos, uma parte de nosso tempo para o trabalho. Quando os joelhos não funcionarem mais, ficaremos sentados no escritório. Quando o cérebro ficar mais devagar, iremos preparar os relatórios. Quando faltar o ar, as dores chegarem, estaremos a frente do computador. Aos 80 anos, seremos gestores, experientes o suficiente e fracos o bastante para administrar a vida dos outros.
Não pense que sou contra o trabalho. Apenas acho que ele deveria fazer parte de uma parcela menor do nosso tempo. Duas ou três horas talvez. Ninguém precisa mais do que isso. Quem quiser mais coisas pra si, que adquira paciência ou aprenda a fabricar.
Nossos tempos são frenéticos. Cada vez mais rápidos e mais distantes do que éramos. Triste, pois ninguém nasce humano, nós nos tornamos humanos. Em meio a esse caos, deixamos de lado este processo e ficamos incompletos. Essa falta de complexidade gera pessoas triviais, desejosas, cheias de anseios fantasiosos. Daí surge às tecnologias. Ora, o que são essas bugigangas, senão muletas?
Saber tudo isso é um começo. Sem inércia, por si mesmo.
"O que há de mais moderno ainda é um sonho muito antigo. Tentei ficar na minha, tentei ficar contigo, o que há de mais seguro também corre perigo." –
Humberto Gessinger