Coloque todos os seus relacionamentos numa mochila. Não se engane sobre seus relacionamentos, são os maiores componentes de sua vida. Você sente que as cintas cortam os seus ombros? Todas essas negociações e discussões, e os segredos e compromissos. Você não precisa carregar esse peso.
Essas frases não são minhas, são do personagem de George Clooney em seu recém-lançado filme Amor Sem Escalas(Up in The Air, 2009, Estados Unidos). Do mesmo diretor de Obrigado por fumar e Juno, Jason Reitman, a história apresenta a vida de um homem em seu cotidiano. Não se engane, pois este não é um simples cotidiano. Sozinho entre a multidão, Clooney passa a vida viajando por uma vida e profissão inusitada. Em sua palavras, seu dever é tornar o limbo aceitável. Em outras palavras, ele precisa fazer demissões.
Imagine passar grande parte de sua vida dentro de aeroportos, fazendo e desfazendo malas, passando sem deixar rastros, sem lugar fixo. Poucos encarariam. Tal vida exige sacrifícios. Para alguns, o maior deles seria os relacionamentos. Viver desta maneira é um verdadeiro contraponto de tudo que o mundo atual sonha, até porque a palavra que resume a maioria destes sonhos é a estabilidade.
A vida de Clooney no filme escancara exatamente este paradoxo. Ele, em sua rotina sem rotina, precisa justamente falar com pessoas arraigadas em seus trabalhos, tão certas como um relógio na parede da sala. Quando recebem a notícia, as reações são as mais bizarras possíveis. Sobre isto, não se trata apenas de orgulho ou prestígio. Ao ouvir a notícia, um filme inteiro passa por nossa cabeça e o medo de encarar uma nova realidade nos paralisa.
Afinal, o que faz alguém se prender tanto a um modo de vida? São os relacionamentos? Toda vez que criamos um vínculo, levamos com ele os compromissos e deveres para mantê-lo. Na medida em que aumentamos esses vínculos, mais peso carregamos. Assim, fica difícil se mover, sair do lugar. Daí queremos estabilidade. Mas não são apenas os relacionamentos. E as coisas materiais? Quanto mais temos, mais precisamos cuidar. A manutenção de certos bens é díficil, custa muito caro. Novamente, quanto mais adquirimos, mais pesados ficamos. Estabilidade vira uma necessidade.
Daí que surge a analogia da mochila. O que realmente precisamos carregar? Quantos relacionamentos realmente precisamos ter? É preciso ter coragem para esvaziar a mochila, jogar fora o restante e seguir adiante. Aonde iremos chegar não importa.
No geral, as pessoas que são livres parecem ser mais felizes. E a maioria admite isso. Mesmo assim, os nossos sonhos continuam os mesmos: encontrar alguém para casar e ter filhos. Apesar destes desejos incongruentes, a verdade é que estando quer nessa ou naquela situação, iremos sempre sentir falta de algo.
Além deste tema, como conjunto, o filme apresenta certas fragilidades e vulgaridades das nossas relações em nossos tempos. Podemos ser distantes e ser profundos, assim como podemos parecer íntimos e ser superficiais. As tecnologias nos dão essa falsa sensação. Viver entre mensagens e telefones pode nos dar uma falsa idéia de amizade ou amor. Irônico que uma simples mensagem pode por fim a tudo. Sem dor, apenas um clique.
Sem exagerar, talvez até queira lembrar, mas aposto alto que o filme leva o Oscar de melhor filme este ano. Jason Reitman foi ignorado com Obrigado por Fumar e bateu na trave com Juno, já que tinha grandes concorrentes. Mas desta vez, seu filme sobra e vai levar mais de uma estatueta. Clooney atuou muito bem, mas Morgan Freeman também fez muito bem o papel de Nelson Mandela em Invictus. Será uma grande disputa. Também não sei será sucesso de bilheteria. Nos Estados Unidos o filme arrecadou o suficiente para se pagar. Uma pena, já que a cada ano que passa tendemos a ter cada vez mais filmes grandiosos com histórias de cabeça oca e poucos de verdade, que realmente valem à pena.
Nestes tempos onde as pessoas só vivem com a cabeça no passado e no futuro, lembrando o que passou e sonhando com o que virá, sinto que quanto mais longe fico de uma pessoa, mais próximo estou dela.

4 comentários:
Muito boa a critica do filme... e otima a redação de quem o escreveu...parabens... vou ler mais aqui
Um abraço e continuem assim!
Muito bom a tua abordagem, Miota. Resenhou o filme e fez um reflexão com profundidade razoável.
Ai, preciso de uma mochila ! Só ando entre o passado e o futuro. Vem ni mim, Clooney !
O filme parece bom, vou assistir.
Mto interessante o blog,
continue assim ;D
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