Numa cidade do interior do país, viviam como irmãos, o pato e o gato. Advindos de famílias distintas, a amizade entre os dois era vista com algo estrambótico perante toda comunidade. Nem mesmo para os pais era possível entender tal relação. Nada tinha haver com a diferença de gêneros, mas sim pela maneira diferente de viver e ver a vida.No colégio, o pato tinha poucos amigos. Totalmente indiferente aos estudos, passava a maior parte do tempo pensando na vida ou dormindo. Mesmo na sala de aula, o pato não dava à mínima, participava quando lhe convinha. Os professores tinham dificuldade para ensiná-lo, mas eram divididos. Alguns deles mofavam, enquanto outros sentiam condoimento, pois viam que tinha potencial. Os pais? Desistiram.
Por outro lado, o gato era uma excelente aluno. Sempre muito aplicado e participativo, enchia de orgulho seus professores, que sentiam pleno prazer em lhe ministrar. “Ali estava um jovem com futuro”, diziam entre eles. Seus deveres vinham em primeiro lugar. Os pais o ensinaram desde cedo que a vida era dura e que através do trabalho nunca ficaria derrelito.
Contudo, com o tempo, a amizade foi ficando de lado. A vida irresponsável do pato perturbava sobremaneira o gato. Até que um dia ele disse:
- Pato, porque vive dormindo pelos cantos? Não dorme a noite?
- Amigo, sinto apenas cansaço. Sabes que não podemos reprimir essas necessidades, não sabes? – disse o pato em tom de ironia.
- Você precisa pensar em seu futuro! Onde vai parar deste jeito?
- Sabe que nunca pensei nisso?
Nisto, o gato ficou vermelho como uma saúva americana.
- Será que não ouve o que lhe dizem? É preciso sofrer para aprender? A vida não é apenas diversão!
O pato apenas deu ombros e saiu, informando que tinha coisas a fazer.
Depois deste dia a amizade entre os dois praticamente acabou. Não por algum rancor ou ressentimento, mas porque não havia mais sintonia. Eles queriam ficar juntos, mas tinham motivos para não ficar.
Passado alguns meses, cheio de si e convicto de suas escolhas, o gato sentiu medo pelo amigo. Notou que, mesmo durante a semana de provas, o pato não se importava em descansar durante a noite para se preparar. Intrigado com a sonolência do amigo decidiu segui-lo durante a noite. Ele não imaginava o que iria encontrar.
Todos os dias, depois da meia-noite, o pato saia para tocar com os amigos. Às vezes para um ensaio, outras para uma apresentação. Não tinha tanto talento, mas sentia verdadeira vontade em fazer aquilo. O gato descobriu e riu, jocosamente.
No colégio, pouco antes das provas, o gato passou pelo corredor e viu o pato encostado na parede com alguns amigos. Sem hesitar, revelou:
- Sei do seu segredo
O pato foi indiferente, ignorou.
- Sei que você tem uma banda – disse o gato imaginando ter desvendado um segredo mórbido
- É, e além disso, escrevo letras também.
- Mas pato, você acha, realmente, que isso via te dar futuro? Por isso que abandona as aulas assim?
- Lá vem você com esse papo de futuro outra vez!
- Sabe quantas pessoas conseguem viver disso? Poucas...
- Não me importo – dando de ombros, o pato
- E as poucas, ainda se matam – e saiu furiosamente o gato.
Bem, o tempo passou e os dois ficaram adultos. O gato entrou na melhor universidade e conseguiu um emprego como engenheiro de uma fábrica de automóveis de renome. O pato se formou ao seu jeito, despediu-se, e não deu mais notícias.
Um belo dia, antes de ir para o trabalho, o gato passou pela banca de jornal para dar uma olhada nas manchetes. Ficou perplexo com a notícia que viu! A crise havia chegado a sua cidade. Descobriu que a empresa em que trabalhava pediu concordata e dispensou, numa leva, 80% do quadro de funcionários. Com o coração na mão, ao chegar ao trabalho, ouviu a notícia que temia: estava demitido, a empresa precisava cortar custos.
À noite, em casa com a família, o gato, desolado, tentou manter as coisas como antes. Às 8:00 horas, ligou a TV para ver os noticiários. “Não, desta vez não”, pensou consigo mesmo. Estava irritado com todo o sistema. Passando pelos canais, parou em um daqueles de auditório. Outra surpresa! Viu o pato no centro! Estava promovendo o lançamento do primeiro cd da banda. Parecia promissor, a música era boa e o público delirava. Quem diria?
Em seis meses buscando emprego, o gato só ouviu desculpas. O mercado não estava bom para pessoas com o seu tipo de profissão. Com tantas dívidas para pagar, não havia como recomeçar facilmente. Pensou em vários tipos de alternativas, mas seus familiares sempre o aconselhavam a continuar tentando, a bater na mesma tecla.
Numa noite, andando pelas ruas da cidade, sem rumo, o gato viu alguém acenando. Não reconheceu. Ficou com medo e decidiu se afastar. Nestes tempos difíceis, já ouvira de tudo. Mas os acenos continuavam. De repente, ouviu uma voz familiar. Decidiu esperar. Sentiu um calafrio, no segundo chamado, reconheceu a voz. Era o pato. Pensou em fugir novamente. Afinal, depois de tanto tempo, como ele o trataria? Queria falar o quê? Dar sermões?
- Amigo! Como estas? Não me reconheceu? – já dando um longo abraço
- Não muito bem. Os tempos estão difíceis amigo, perdi meu emprego – falou o gato enquanto olhava para suas patas
- Quem diria meu amigo, uma crise dessas? Ninguém esperava...
- E você, não se abalou?
- Não sei se você soube, minha banda lançou um cd e viramos um sucesso da noite para o dia. Ganhamos muito dinheiro. Por agora as vendas caíram um pouco, mas nada que nos abale. Vamos passar este “inferno” bem aquecidos.
- Eu soube sim amigo. Fiquei feliz por você. Até pensei em procurá-lo, para pedir ajuda.
- E por que não o fizestes?
- Fiquei com medo. Além disso, meus familiares me aconselharam a não fazer. Disseram que não era de bom tom e que você daria as costas.
Foi então que o gato ouviu algo que estava além dos outdoors:
- Meu amigo, preste atenção, aprendi uma coisa muito séria nesta vida: ouça o que eu digo, não ouça ninguém.
E foram embora felizes com o reencontro, prontos para seguir adiante.

2 comentários:
Ai, Miota...depois vc reclama que eu critico seus posts.
Aham...
Gostei do nome do blog.
Gostei da introdução dada ao texto.
Gostei da sua passagem pelo meu blog.
Feliz 2010!
Postar um comentário