sábado, 16 de janeiro de 2010

Assassinos sem causa

Mesmo que alguns tenham uma vida atribulada, imaginar um futuro melhor pode aliviar o sofrimento. O que estes ataques fazem é roubar tudo isso

A Copa Africana de Nações deixou seus torcedores perplexos. Poderia ter sido, mas, infelizmente, a razão disto não foi o jogo de abertura entre a anfitriã Angola contra Mali, onde os donos da casa abriram 4x0 para nos quinze minutos finais verem seus adversários milagrosamente empatarem o jogo. O que chocou os africanos foi um atentado terrorista contra a seleção de Togo, que tragicamente, deixou mortos e feridos entre a comissão técnica e os atletas.

Recuso-me a apontar levianamente para o mau. Muitas pessoas logo de cara saem dizendo que essas coisas acontecem porque existem pessoas más no mundo. Esse papo maniqueísta, além de religioso, sempre acaba na vala comum de um discurso casuísta.

Estudiosos bem intencionados tentaram estudar a origem destes ataques. A explicação que encontram aparece nos discursos contra o imperialismo, as injustiças cometidas por um sistema corrupto e a ordem divina. Oriundos, na maior parte, do oriente, estes atentados terroristas soam como uma última voz desesperada. Quer dizer, soaram. O evento em Angola mostra que eles estão na eira da boçalidade.

Outros atentados ocorreram em prédios que representavam um antro financeiro ou um poderio militar ou geopolítico. Agora, como justificar um atentando contra uma seleção de futebol africana como Togo? Apesar das rixas infantis entre as torcidas por seus fanatismos, o esporte desempenha o papel de unir as pessoas, principalmente quando envolve a nação, numa mistura de emoção e patriotismo. Não gosto destes sentimentos, mas tenho que concordar que geram externalidades positivas sem precedentes para uma nação.

O exemplo recente da África do Sul comprova o que estou dizendo. Em 1995, quando o país ainda estava com as feridas do apartheid abertas, obteve a oportunidade de receber o campeonato mundial de rúgbi. O esporte é aclamado por diversos países e a final pode ser assistida por 1 bilhão de pessoas. A seleção sulafricana era formada basicamente por brancos, o que gerava um desgoto por parte da polulação negra. Num gesto de humanidade, o recém-eleito presidente Nelson Mandela utilizou a seleção como o símbolo de união para o país e tratou de retirar qualquer vestígio maléfico e associou a vitória no torneio como algo de orgulho nacional. Aproximou os jogadores, que eram estrelas, da população mais pobre. O resultado foi que as pessoas, torcendo pela mesma causa, acabaram superam profundas diferenças raciais. A historia é belíssima e pode ser vista no novo filme de Clint Eastwood intitulado Invictus.

O que estou tentando dizer é que estes ataques terroristas não possuem nenhum vínculo ou causa subjacente quando atacam atletas africanos. Também não quero dizer que eles deveriam ter, pois a verdade é que eles não deveriam existir. Gandhi deixou um excelente exemplo de como combater a injustiça sem utilizar violência. Porém, mais do que estes assassinatos, o que mais assusta, e nisso a violência é brutal, são os impactos psicológicos destes atentados.

Ora, se não existe mais razão alguma para haver esses ataques, a insegurança se agrava e o sentimento de pânico assume o controle. Nada mais terrível do que viver com a sensação de que pode perder a vida a qualquer momento. A vontade para fazer coisas um pouco mais longínquas vai para o espaço. Quando esse pânico nos persegue, a vida perde o sabor e vira um tormento. Mesmo que alguns tenham uma vida atribulada, imaginar um futuro melhor pode aliviar o sofrimento. O que estes ataques fazem é roubar tudo isso. Portanto, quando acontecem atentados como este, as mortes não podem ser contabilizadas, pois não sabemos até que ponto elas deixaram suas marcas ou armas.

Muitos rezam. Num momento tão desigual como este dificilmente alguma reza fará efeito para atenuar ou inibir estes atentados. Olho vivo faro fino. Às vezes me preocupo com alguns problemas do bairro, como carros ou casas roubadas. Mas quando vejo estes atentados, fico com vergonha dos meus medos.

1 comentários:

Petrucchio disse...

"Estudiosos sérios" que tem visão da África como unidade negra somente e outra branca não conhece a África.