Esta semana aconteceu algo com uma amiga que me deixou muito pensativo. Apesar de não sermos tão íntimos, nos vemos todos os dias e, portanto, sabemos muito sobre o dia-a-dia de cada um. Na terça não a vi e recebi a notícia de que seu primo havia falecido. Como ainda não tinha ouvido falar sobre uma doença terminal logo desconfiei. Depois ela me revelou. Morreu num acidente. Não viu nem sentiu.O choque de uma notícia como essa é dolorosa para os próximos e assustadora mesmo para quem apenas lê num jornal. A idéia de repentinamente nunca mais poder ver alguém sempre é inaceitável. Morte por morte, todos deveriam ter a oportunidade de se despedir de seus entes queridos.
Conversando com um amigo, ouvi dele uma frase interessante, do poeta Vinícius de Moraes: “A gente mal nasce e começa a morrer”. Aliás, ele me revelou que essa frase aparece na abertura da novela das oito, Viver a Vida da Rede Globo. Ou seja, apenas eu, não a conhecia.
Aceitando essa idéia de que fatalmente iremos morrer sem a menor possibilidade de reversão, pergunto: qual a melhor maneira de se entregar a isso? Instantaneamente como num acidente, ou aos poucos como numa doença terminal?
Numa doença terminal a pessoa pode sofrer muito. Num caso como câncer, além da doença, soma-se o tratamento que pode envolver uma quimioterapia ou coisa pior. Ninguém merece passar por algo assim, nem mesmo os Nardoni. Já ouvi relatos, de que nessas horas, nem a morfina resolve. Por outro lado, a família tem a oportunidade de se despedir. O processo de aceitação não é brusco e acaba sendo superado de uma forma mais atenuada. Claro que a família também sofre muito, mas existe ao menos o consolo de poderem dar os últimos passos juntos.
No caso de uma morte num acidente, a notícia choca, nos deixa perplexos, sofremos um ataque de loucura e negação, que no final desemboca numa dor crônica irremediável. Os sentimentos, todos eles misturados da mais forte dose, acabam por traumatizar. Seguir em frente é possível, mas nunca deixamos de lado, independente do que aconteça. Neste caso, não houve tempo para reparar nada. O que sobra é tempo para arrependimentos. Contudo, pensando na pessoa que sofre o acidente, é evidente que para ela foi melhor. Ir embora sem sentir dor deveria ser lei para a morte.
Falei do consolo do primeiro caso, mas sinceramente, não sei se existe alguma diferença nisto. Quem ama de verdade deseja o melhor. Dane-se nossos sentimentos, o importante mesmo é que o outro não sofra. O que nos resta são as memórias. Podem ser pouco. Ao menos são um laço. Com elas, nunca iremos nos separar. Eternizamos.
Queria ter falado tudo isso para minha amiga. Falar que ele não sofreu. Porém, achei melhor não tocar no assunto. O melhor que se pode fazer é seguir em frente. Se algo assim acontecesse comigo, desejaria que todos parassem e lembrassem dos grandes momentos. Mas não desejaria que essa "parada" fosse longa e sim breve. Outras coisas trarão novas lembranças e ainda assim poderei fazer parte delas.
Nestas horas as pessoas se apegam a tudo. Concordo. Porém, nada melhor do que se apegar a realidade. Não faz bem ignorar algo por tanto tempo. Quem perdeu alguém, sabe do que estou falando.

1 comentários:
Bem, eu que perdi uma irmã num assalto sei como é difícil aceitar que num momento você está conversando normalmente e poucas horas depois a pessoa se foi por completo. Por isso que eu digo que nunca devemos ficar brigados com ninguém, não só por egoísmo de não se sentir mal se algo acontecer, mas porque a pessoa terá ido embora com alguma tristeza e isso também é uma forma de egoísmo não?
Por isso que em qualquer tipo de relacionamento, seja amizade, namoro, família, até mesmo com animais de estimação, devemos fazer o possível para que o outro seja feliz enquanto estiver ao nosso lado =)
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